Em tempos difíceis, além de a todos que me cercam com muito carinho, agradeço a D-us pela força e pela luz que me cede para poder sonhar e agir por um futuro melhor para todos nós, seres vivos humanos e não-humanos.
Minha vida não é minha. Nasci para servir a um projeto maior, que ainda está em gestação em nossa sociedade. Sou uma célula dele e, embora minha função seja multiplicar, a qualquer momento estou disposto à apoptose, se eu me tornar prejudicial a ele.
O importante é que agora estou no caminho adequado e doando minha vida sempre a esse projeto maior. Não tenho medo ou vergonha de dizer em que acredito: o NOVO socialismo, amparado nos valores e ideais de seus primeiros pensadores, antes daqueles que o deturparam com o totalitarismo e o poder absoluto.
sábado, 5 de outubro de 2013
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
O Tempo e as Respostas
Se há uma única certeza que tenho sobre nossa sociedade é que mudanças profundas nos rodeiam. Posso sentir, embora não possa ver ainda como serão exatamente.
Mas não há nada melhor que o tempo para trazer respostas às perguntas difíceis.
Difícil é aguardar, sem a possibilidade de ficar parado, já que a vida é, em sua essência, movimento.
Mas não há nada melhor que o tempo para trazer respostas às perguntas difíceis.
Difícil é aguardar, sem a possibilidade de ficar parado, já que a vida é, em sua essência, movimento.
Awakening para a Política
É clichê ressuscitar o Analfabeto Político de Brecht, mas tem horas que isso se faz necessário.
O pior de tudo não é que o apolítico não percebe que tudo o que o cerca é movido por política. Não só o preço da comida e do transporte, mas sobretudo como as pessoas se relacionam, se são relações saudáveis e que trazem felicidade ou se são relações de poder abusivo, onde um alimenta-se da infelicidade do outro. O pior de tudo é, pois, que não é capaz de perceber que, mesmo não desejando, é, sim, um ser político e que sua inércia só dá poder à hegemonia vigente.
A sociedade nos ensina a ver a pobreza - a feiura, o diferente, o imoral, o inferior etc. - com desgosto e ignorância. Mas a pobreza deveria ser vista com constrangimento: como posso ser responsável por isso e não fazer nada para mudar? Não fazer nada é, aliás, conforme já falei, fazer em favor do aprofundamento do abismo social que existe em nossa sociedade.
Dessa forma, prefiro ser taxado de sonhador, idealista, utópico, iludido, o que for, a ser mero espectador de minha própria história e, sobretudo, da história de meus semelhantes, que precisam de minha ajuda para se descobrirem e se tornarem atores também.
O processo de awakening para a Política (em seu mais amplo sentido) não é por si só motivo de prazer ou alegrias, visto que, como falei, é preciso coragem e estômago para ver realmente a realidade que o cerca. A angústia em ver-se rodeado de tanta miséria e sofrimento, no entanto, é superada pela serenidade em poder dormir tendo a certeza de que algo está sendo feito para superar esse modelo de exploração e que eu faço parte desse processo de superação.
Se há pessoas dispostas a continuar vivendo nesse modelo, em posição de exploradas e manipuladas, espero um dia ser capaz de convencê-las pelo exemplo de que uma outra forma de sociedade é possível, sim. Até lá, resignar-me-ei em ser taxado de adjetivos vazios que não me cabem. É o preço que se paga por não aceitar a realidade vigente.
O pior de tudo não é que o apolítico não percebe que tudo o que o cerca é movido por política. Não só o preço da comida e do transporte, mas sobretudo como as pessoas se relacionam, se são relações saudáveis e que trazem felicidade ou se são relações de poder abusivo, onde um alimenta-se da infelicidade do outro. O pior de tudo é, pois, que não é capaz de perceber que, mesmo não desejando, é, sim, um ser político e que sua inércia só dá poder à hegemonia vigente.
A sociedade nos ensina a ver a pobreza - a feiura, o diferente, o imoral, o inferior etc. - com desgosto e ignorância. Mas a pobreza deveria ser vista com constrangimento: como posso ser responsável por isso e não fazer nada para mudar? Não fazer nada é, aliás, conforme já falei, fazer em favor do aprofundamento do abismo social que existe em nossa sociedade.
Dessa forma, prefiro ser taxado de sonhador, idealista, utópico, iludido, o que for, a ser mero espectador de minha própria história e, sobretudo, da história de meus semelhantes, que precisam de minha ajuda para se descobrirem e se tornarem atores também.
O processo de awakening para a Política (em seu mais amplo sentido) não é por si só motivo de prazer ou alegrias, visto que, como falei, é preciso coragem e estômago para ver realmente a realidade que o cerca. A angústia em ver-se rodeado de tanta miséria e sofrimento, no entanto, é superada pela serenidade em poder dormir tendo a certeza de que algo está sendo feito para superar esse modelo de exploração e que eu faço parte desse processo de superação.
Se há pessoas dispostas a continuar vivendo nesse modelo, em posição de exploradas e manipuladas, espero um dia ser capaz de convencê-las pelo exemplo de que uma outra forma de sociedade é possível, sim. Até lá, resignar-me-ei em ser taxado de adjetivos vazios que não me cabem. É o preço que se paga por não aceitar a realidade vigente.
Sobre o TSE, 2014, a REDE e Mim
Ontem prometi no facebook uma carta/ensaio sobre a diligência do registro da REDE pelo TSE.
Pois bem: a fortaleza dos sentimentos impediu minhas inspirações de se traduzirem em palavras! Mas não me impediu de fazer uma breve busca aos pensadores de outrora para que transmitam as palavras que surgem em minha mente, mas que minhas mãos se negam a escrever. Apreciem o resultado!
Sobre a decisão do TSE e os possíveis erros da REDE:
“Livrem-se das velhas categorias do negativo (a lei, o limite, as castrações, a falta, a lacuna) que por tanto tempo o pensamento ocidental considerou sagradas, como forma de poder e modo de acesso à realidade. Prefiram o que é positivo e múltiplo, a diferença à uniformidade, os fluxos às unidades, os agenciamentos móveis aos sistemas.”
— Michel Foucault
“Uma idéia nova nunca pode caminhar dentro da lei. Pouco importa se esta idéia diz respeito às mudanças políticas ou sociais, ou a qualquer outro domínio de pensamento e expressão humana – a ciência, literatura, música; na realidade, tudo aquilo que se direciona a liberdade, regozijo e à beleza, tem que se negar a caminhar dentro da lei. Como poderia ser diferente? A lei é estacionária, fixa, mecânica, ‘uma roda de biga’ que esmaga tudo pela frente, sem levar em conta a hora, lugar e condições, sem levar em conta causa e efeito, sem nunca entrar nas minúcias da alma humana.”
— Emma Goldman
Sobre a eleição de 2014:
“A liberdade de eleições permite que você escolha o molho com o qual será devorado.”
— Eduardo Galeano
“Os políticos e as fraldas devem ser mudados frequentemente e pela mesma razão.”
— Eça de Queirós
Sobre o futuro da REDE:
“Não se pode matar a Idéia a tiros de canhão, nem tão pouco acorrentá-la.”
— Louise Michel
"Nada neste mundo é tão poderoso como uma idéia cuja oportunidade chegou."
- Victor Hugo
“Não há nada como o sonho para criar o futuro. Utopia hoje, carne e osso amanhã."
- Victor Hugo
“A única alternativa é a utopia ou o caos. (…) os sintomas do desmoronar da civilização podem ser vistos por todas as partes e são bem mais agudos que aqueles percebidos nos últimos anos do império romano. No entanto, nem todos estes sintomas são necessariamente patológicos. O mundo contemporâneo se vê afetado por duas tendências opostas: uma que tende a sua destrução social, a outra que anuncia o nascimento de uma nova sociedade.”
— Kenneth Rexroth
Sobre meus aprendizados e reflexões com o que vivi nesses 8 meses de REDE:
“Jamais interprete, experimente.”
Gilles Deleuze
“Estamos usando nosso cérebro de maneira excessivamente disciplinada, pensando só o que é preciso pensar, o que se nos permite pensar.”
— José Saramago
“Quem combate monstruosidades deve cuidar para que não se torne um monstro. E se olhares durante muito tempo para um abismo, o abismo também olha para dentro de você.”
— Friedrich Nietzsche
“É a democracia, tal como a conhecemos, a melhor possibilidade em matéria de governo? Não é possível dar um passo mais em direção ao reconhecimento e a organização dos direitos do homem? Nunca poderá haver um Estado realmente livre e iluminado até que não se reconheça ao indivíduo como poder superior independente de quem deriva e a quem lhe cabe sua própria autoridade, e, em consequência, lhe de o tratamento correspondente.”
— Henry David Thoreau
"Cada um pensa em mudar a humanidade, mas ninguém pensa em mudar-se a sí mesmo."
— Liev Tolstói
Por fim:
“Somente os anarquistas haverão de saber que somos anarquistas e lhes pediremos que não se chamem assim para que não assustem os imbecis.”
— Ricardo Flores Magón
Esse é o meu recado. Agradeço aos grandes pensadores que me permitiram expressar o que sinto a partir dessa coletânea de citações. Espero que nenhum esteja vivo, para que não me cobrem direitos autorais. Nesse caso, ainda dou a última pitada: "É preferível cultivar o respeito do bem que o respeito pela lei." (Thoreau)
Pois bem: a fortaleza dos sentimentos impediu minhas inspirações de se traduzirem em palavras! Mas não me impediu de fazer uma breve busca aos pensadores de outrora para que transmitam as palavras que surgem em minha mente, mas que minhas mãos se negam a escrever. Apreciem o resultado!
Sobre a decisão do TSE e os possíveis erros da REDE:
“Livrem-se das velhas categorias do negativo (a lei, o limite, as castrações, a falta, a lacuna) que por tanto tempo o pensamento ocidental considerou sagradas, como forma de poder e modo de acesso à realidade. Prefiram o que é positivo e múltiplo, a diferença à uniformidade, os fluxos às unidades, os agenciamentos móveis aos sistemas.”
— Michel Foucault
“Uma idéia nova nunca pode caminhar dentro da lei. Pouco importa se esta idéia diz respeito às mudanças políticas ou sociais, ou a qualquer outro domínio de pensamento e expressão humana – a ciência, literatura, música; na realidade, tudo aquilo que se direciona a liberdade, regozijo e à beleza, tem que se negar a caminhar dentro da lei. Como poderia ser diferente? A lei é estacionária, fixa, mecânica, ‘uma roda de biga’ que esmaga tudo pela frente, sem levar em conta a hora, lugar e condições, sem levar em conta causa e efeito, sem nunca entrar nas minúcias da alma humana.”
— Emma Goldman
Sobre a eleição de 2014:
“A liberdade de eleições permite que você escolha o molho com o qual será devorado.”
— Eduardo Galeano
“Os políticos e as fraldas devem ser mudados frequentemente e pela mesma razão.”
— Eça de Queirós
Sobre o futuro da REDE:
“Não se pode matar a Idéia a tiros de canhão, nem tão pouco acorrentá-la.”
— Louise Michel
"Nada neste mundo é tão poderoso como uma idéia cuja oportunidade chegou."
- Victor Hugo
“Não há nada como o sonho para criar o futuro. Utopia hoje, carne e osso amanhã."
- Victor Hugo
“A única alternativa é a utopia ou o caos. (…) os sintomas do desmoronar da civilização podem ser vistos por todas as partes e são bem mais agudos que aqueles percebidos nos últimos anos do império romano. No entanto, nem todos estes sintomas são necessariamente patológicos. O mundo contemporâneo se vê afetado por duas tendências opostas: uma que tende a sua destrução social, a outra que anuncia o nascimento de uma nova sociedade.”
— Kenneth Rexroth
Sobre meus aprendizados e reflexões com o que vivi nesses 8 meses de REDE:
“Jamais interprete, experimente.”
Gilles Deleuze
“Estamos usando nosso cérebro de maneira excessivamente disciplinada, pensando só o que é preciso pensar, o que se nos permite pensar.”
— José Saramago
“Quem combate monstruosidades deve cuidar para que não se torne um monstro. E se olhares durante muito tempo para um abismo, o abismo também olha para dentro de você.”
— Friedrich Nietzsche
“É a democracia, tal como a conhecemos, a melhor possibilidade em matéria de governo? Não é possível dar um passo mais em direção ao reconhecimento e a organização dos direitos do homem? Nunca poderá haver um Estado realmente livre e iluminado até que não se reconheça ao indivíduo como poder superior independente de quem deriva e a quem lhe cabe sua própria autoridade, e, em consequência, lhe de o tratamento correspondente.”
— Henry David Thoreau
"Cada um pensa em mudar a humanidade, mas ninguém pensa em mudar-se a sí mesmo."
— Liev Tolstói
Por fim:
“Somente os anarquistas haverão de saber que somos anarquistas e lhes pediremos que não se chamem assim para que não assustem os imbecis.”
— Ricardo Flores Magón
Esse é o meu recado. Agradeço aos grandes pensadores que me permitiram expressar o que sinto a partir dessa coletânea de citações. Espero que nenhum esteja vivo, para que não me cobrem direitos autorais. Nesse caso, ainda dou a última pitada: "É preferível cultivar o respeito do bem que o respeito pela lei." (Thoreau)
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
Precariado: frustração no capitalismo do desejo (Juan Carlos Monedero)
Que é a nova classe social? Em que difere do proletariado histórico? Livro recém-lançado de Guy Standing lança provocações instigantes
Por Juan Carlos Monedero | Tradução: Inês Castilho
–
Resenha de Precariado, a nova classe perigosa, de Guy Standing. Tradução: Cristina Antunes. Editora Autêntica, 2013
–
“Somos todos precários”, afirma Guy Standing ao final de seu estudo sobre essa nova realidade do trabalho, nascida do cruzamento do “proletariado” com o “precário”. Vivemos em um capitalismo do desejo, da informação, das marcas, do projeto, do dinheiro e das finanças virtuais. Neste capitalismo de projeto, o precariado é aquela pessoa aturdida, que gastou suas economias em um perfume propagandeado, mas que não obteve o sucesso social. Ao contrário do excluído tradicional, ele é convidado para a festa – mas batem-lhe a porta à cara. A condição essencial do precariado é a frustração. Ela pode transfornar-se em vontade política de mudança? Não é fácil. Hoje, o precariado opta mais pela teatralidade das protestos mais numerosos que as manifestações tradicionais esquerda ou direita – mas capazes, no máximo, de constranger o Estado, não de transformá-lo.
Já faz trinta anos que a direita expôs sua receita e a repetiu até convertê-la em um novo senso comum: desmontar o Estado, privatizar, desideologizar parlamentos e partidos, controlar a mídia, financiar fundações e universidades, combater os “excessos de democracia”, submeter o Sul por meio da dívida, aumentar a exploração da natureza e financiar a economia através do déficit público e eliminação dos limites à expansão financeira. A esquerda social-democrata abraçou o neoliberalismo sob a égide da “terceira via”. A esquerda não social-democrata se social-democratizou e começou a entoar o canto repetido do retorno ao Estado social perdido (que ontem criticava). A direita passou três décadas fazendo seus deveres. Já a esquerda, não. A precarização generalizada do trabalho não esteve ausente nessas décadas. Na verdade, ninguém moveu um dedo para evitar que isso acontecesse.
O precariado, diz Standing, é uma nova classe social em formação que, embora ainda não seja uma “classe para si” (quer dizer, que se reconhece e luta por seus próprios interesses), tem já uma série de características específicas que nos convidam a entendê-la como uma entidade que promete ação coletiva própria. O precariado vive uma flexibilidade laboral nem sempre desejada e uma constante sensação de levar uma vida de má qualidade. Não equivale nem aos proletários tradicionais nem às classes médias superexploradas. Tampouco uma “subclasse” ou “a camada inferior da classe trabalhadora”. Quer boa parte das garantias dos trabalhadores tradicionais, mas não uma vida profissional como a de seus pais ou avós. Suas incertezas e inseguranças são peculiares. Consumistas e carentes de memória, seus membros parecem elegantes aos olhos dos mais velhos – que eles enxergam como dinossauros privilegiados.
Embora os sindicatos não o compreendam direito, o precariado existe e tem suas próprias características, ainda que seja apenas porque lê sua realidade de forma diferente. São pessoas bem-formadas, às quais se prometeu (na escola, na faculdade, na televisão, na publicidade, no exemplo de quem teve sorte) um mundo divertido, confortável e criativo – que nunca chega. São aqueles que viram a escada pela qual subiam ser chutada pelos que vieram antes deles. Mas que ainda não parecem ter pressa (como teve a classe operária, desde o final do século XIX). São pessoas com certa rede familiar (que se sustenta cada vez mais nos avós, mas que também está se precarizando), com uma formação que lhes permite sonhar com um futuro profissional brilhante (ao contrário do ocorreria com um proletário tradicional, condenado a um realismo inclemente). São mulheres e jovens (em sociedades onde as mulheres estão lutando para conseguir um espaço de igualdade e diferença, e onde há um aumento da esperança de vida que prolonga a juventude até os quarenta). São receptivos às mensagens de rebeldia e inconformismo herdados de 68. São urbanos (resultado do êxodo do campo para a cidade a partir dos anos 60 do século XX) e, portanto, sujeitos à condição paradoxal de estar profundamente conectados às redes, ao mesmo tempo em que estão desconectados do mundo real.
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O precariado diferencia-se do assalariado “com um posto de trabalho relativamente duradouro e estável, com jornadas de fixas e caminhos de progresso bastante claros, com sindicatos e acordos coletivos, com funções cujos nomes seus pais compreendiam”. A pergunta quase óbvia é: mas o precariado não é na verdade a mesma classe proletária fustigada de sempre? Standing insiste em que são realidades diferentes. Basicamente, o que ele está dizendo é que o mundo do Estado social está acabando. A diferença entre o precariado e outras formas de trabalho subalterno não está tanto em sua “decadência” profissional, mas na leitura que construiram sobre o lugar que mereceriam ocupar. O precariado conseguiu fazer, no oásis social-democrata, os deveres de casa necessários para estar em outro lugar – por exemplo, formando-se, manejando tecnologias, aprendendo idiomas, conhecendo o mundo. No entanto, está por baixo. O risco de que despreze o proletário tradicional é grande, assim como o de demonizar o imigrante, que “parasita os subsídios” (que estão no mesmo lugar que ele, mas dos quais quer distância). Daí pode surgir um problema que conviria resolver: os oprimidos históricos desprezam o precariado (sendo eles próprios precários); e este despreza a camada inferior da classe operária. Trata-se de encontrar a janela de oportunidade para unir essas forças.
O precariado tem um “status truncado”. O status é o espaço de reconhecimento vinculado ao trabalho assalariado. Enquanto um trabalhador de baixo salário podia construir uma carreira profissional (ainda que limitada), o precário tem essa possibilidade negada. O precário carece de segurança para conseguir emprego, manter-se no emprego, fazer carreira, ter garantias e segurança no posto de trabalho, reproduzir suas habilidades, manter uma renda e representar seus interesses coletivamente. Carece da identidade baseada no trabalho, não tem memória social nem sensação de pertencer a uma “comunidade ocupacional baseada em práticas estáveis, códigos éticos e normas de comportamento, reciprocidade e fraternidade”.
A solidariedade entre os precários é fragil. A sensação é de estar sendo maltratado, e de enfado diante da diferença entre sua sorte e a dos outros. O antigo estagiário tornou-se hoje um simples precário. Portanto, há quatro novas características do precário. Aversão (certa inveja ou ressentimento que leva ao desenraizamento ou excesso de autoexploração). Anomia, essa passividade nascida do desespero. Ansiedade, por se saber sempre à beira do abismo (basta um erro ou um golpe da sorte para cair no lado escuro da vida). É a frustração de saber que se tem muito pouco e, não bastasse isso, é muito fácil perder o que se tem. Por fim, a alienação: frustrado profissionalmente, o precário tem dificuldades profundas em desenvolver relações de confiança, ao mesmo tempo em que escuta que deve ser positivo e sorrir.
O precariado está lançado no mundo, à mercê de forças – os mercados – contra as quais não pode fazer nada, a não ser acrescentar ressentimento. A política poderia ajudar, mas por força de não controlar seu destino, de ter-se desenvolvido em formas de democracia representativa, de estar sujeito a constantes mensagens que dizem não haver alternativa, acabou desprezando a política, perdendo o único instrumento que poderia realmente ajudar.
O livro deixa perguntas. Standing não critica o capitalismo, mas apenas seus excessos neoliberais. Daí sua proposta de “mercantilização total do trabalho” (dando como certo que quem contrata, necessita; e vai remunerar segundo as regras teóricas do “mercado de trabalho”) ou que os países ricos convertam-se em “economias rentistas” e invistam nos países emergentes. É muita suposição. Como quando ele fala de um precariado bom – ao qual atribui todas as qualidades de uma cidadania responsável – e um mau – que cairia nas garras da direita populista.
A classe operária podia invadir o paraíso, porque o grosso da humanidade era trabalhadora e o sistema de produção capitalista é um modo de produção sustentado pelo trabalho alheio. Pensar o precariado revolucionariamente, sem mudar o capitalismo, é um exagero. Um precariado que, por enquanto, só quer melhorar suas condições de vida. A consciência resultará de suas lutas.
Por Juan Carlos Monedero | Tradução: Inês Castilho
–
Resenha de Precariado, a nova classe perigosa, de Guy Standing. Tradução: Cristina Antunes. Editora Autêntica, 2013
–
“Somos todos precários”, afirma Guy Standing ao final de seu estudo sobre essa nova realidade do trabalho, nascida do cruzamento do “proletariado” com o “precário”. Vivemos em um capitalismo do desejo, da informação, das marcas, do projeto, do dinheiro e das finanças virtuais. Neste capitalismo de projeto, o precariado é aquela pessoa aturdida, que gastou suas economias em um perfume propagandeado, mas que não obteve o sucesso social. Ao contrário do excluído tradicional, ele é convidado para a festa – mas batem-lhe a porta à cara. A condição essencial do precariado é a frustração. Ela pode transfornar-se em vontade política de mudança? Não é fácil. Hoje, o precariado opta mais pela teatralidade das protestos mais numerosos que as manifestações tradicionais esquerda ou direita – mas capazes, no máximo, de constranger o Estado, não de transformá-lo.
Já faz trinta anos que a direita expôs sua receita e a repetiu até convertê-la em um novo senso comum: desmontar o Estado, privatizar, desideologizar parlamentos e partidos, controlar a mídia, financiar fundações e universidades, combater os “excessos de democracia”, submeter o Sul por meio da dívida, aumentar a exploração da natureza e financiar a economia através do déficit público e eliminação dos limites à expansão financeira. A esquerda social-democrata abraçou o neoliberalismo sob a égide da “terceira via”. A esquerda não social-democrata se social-democratizou e começou a entoar o canto repetido do retorno ao Estado social perdido (que ontem criticava). A direita passou três décadas fazendo seus deveres. Já a esquerda, não. A precarização generalizada do trabalho não esteve ausente nessas décadas. Na verdade, ninguém moveu um dedo para evitar que isso acontecesse.
O precariado, diz Standing, é uma nova classe social em formação que, embora ainda não seja uma “classe para si” (quer dizer, que se reconhece e luta por seus próprios interesses), tem já uma série de características específicas que nos convidam a entendê-la como uma entidade que promete ação coletiva própria. O precariado vive uma flexibilidade laboral nem sempre desejada e uma constante sensação de levar uma vida de má qualidade. Não equivale nem aos proletários tradicionais nem às classes médias superexploradas. Tampouco uma “subclasse” ou “a camada inferior da classe trabalhadora”. Quer boa parte das garantias dos trabalhadores tradicionais, mas não uma vida profissional como a de seus pais ou avós. Suas incertezas e inseguranças são peculiares. Consumistas e carentes de memória, seus membros parecem elegantes aos olhos dos mais velhos – que eles enxergam como dinossauros privilegiados.
Embora os sindicatos não o compreendam direito, o precariado existe e tem suas próprias características, ainda que seja apenas porque lê sua realidade de forma diferente. São pessoas bem-formadas, às quais se prometeu (na escola, na faculdade, na televisão, na publicidade, no exemplo de quem teve sorte) um mundo divertido, confortável e criativo – que nunca chega. São aqueles que viram a escada pela qual subiam ser chutada pelos que vieram antes deles. Mas que ainda não parecem ter pressa (como teve a classe operária, desde o final do século XIX). São pessoas com certa rede familiar (que se sustenta cada vez mais nos avós, mas que também está se precarizando), com uma formação que lhes permite sonhar com um futuro profissional brilhante (ao contrário do ocorreria com um proletário tradicional, condenado a um realismo inclemente). São mulheres e jovens (em sociedades onde as mulheres estão lutando para conseguir um espaço de igualdade e diferença, e onde há um aumento da esperança de vida que prolonga a juventude até os quarenta). São receptivos às mensagens de rebeldia e inconformismo herdados de 68. São urbanos (resultado do êxodo do campo para a cidade a partir dos anos 60 do século XX) e, portanto, sujeitos à condição paradoxal de estar profundamente conectados às redes, ao mesmo tempo em que estão desconectados do mundo real.
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O precariado diferencia-se do assalariado “com um posto de trabalho relativamente duradouro e estável, com jornadas de fixas e caminhos de progresso bastante claros, com sindicatos e acordos coletivos, com funções cujos nomes seus pais compreendiam”. A pergunta quase óbvia é: mas o precariado não é na verdade a mesma classe proletária fustigada de sempre? Standing insiste em que são realidades diferentes. Basicamente, o que ele está dizendo é que o mundo do Estado social está acabando. A diferença entre o precariado e outras formas de trabalho subalterno não está tanto em sua “decadência” profissional, mas na leitura que construiram sobre o lugar que mereceriam ocupar. O precariado conseguiu fazer, no oásis social-democrata, os deveres de casa necessários para estar em outro lugar – por exemplo, formando-se, manejando tecnologias, aprendendo idiomas, conhecendo o mundo. No entanto, está por baixo. O risco de que despreze o proletário tradicional é grande, assim como o de demonizar o imigrante, que “parasita os subsídios” (que estão no mesmo lugar que ele, mas dos quais quer distância). Daí pode surgir um problema que conviria resolver: os oprimidos históricos desprezam o precariado (sendo eles próprios precários); e este despreza a camada inferior da classe operária. Trata-se de encontrar a janela de oportunidade para unir essas forças.
O precariado tem um “status truncado”. O status é o espaço de reconhecimento vinculado ao trabalho assalariado. Enquanto um trabalhador de baixo salário podia construir uma carreira profissional (ainda que limitada), o precário tem essa possibilidade negada. O precário carece de segurança para conseguir emprego, manter-se no emprego, fazer carreira, ter garantias e segurança no posto de trabalho, reproduzir suas habilidades, manter uma renda e representar seus interesses coletivamente. Carece da identidade baseada no trabalho, não tem memória social nem sensação de pertencer a uma “comunidade ocupacional baseada em práticas estáveis, códigos éticos e normas de comportamento, reciprocidade e fraternidade”.
A solidariedade entre os precários é fragil. A sensação é de estar sendo maltratado, e de enfado diante da diferença entre sua sorte e a dos outros. O antigo estagiário tornou-se hoje um simples precário. Portanto, há quatro novas características do precário. Aversão (certa inveja ou ressentimento que leva ao desenraizamento ou excesso de autoexploração). Anomia, essa passividade nascida do desespero. Ansiedade, por se saber sempre à beira do abismo (basta um erro ou um golpe da sorte para cair no lado escuro da vida). É a frustração de saber que se tem muito pouco e, não bastasse isso, é muito fácil perder o que se tem. Por fim, a alienação: frustrado profissionalmente, o precário tem dificuldades profundas em desenvolver relações de confiança, ao mesmo tempo em que escuta que deve ser positivo e sorrir.
O precariado está lançado no mundo, à mercê de forças – os mercados – contra as quais não pode fazer nada, a não ser acrescentar ressentimento. A política poderia ajudar, mas por força de não controlar seu destino, de ter-se desenvolvido em formas de democracia representativa, de estar sujeito a constantes mensagens que dizem não haver alternativa, acabou desprezando a política, perdendo o único instrumento que poderia realmente ajudar.
O livro deixa perguntas. Standing não critica o capitalismo, mas apenas seus excessos neoliberais. Daí sua proposta de “mercantilização total do trabalho” (dando como certo que quem contrata, necessita; e vai remunerar segundo as regras teóricas do “mercado de trabalho”) ou que os países ricos convertam-se em “economias rentistas” e invistam nos países emergentes. É muita suposição. Como quando ele fala de um precariado bom – ao qual atribui todas as qualidades de uma cidadania responsável – e um mau – que cairia nas garras da direita populista.
A classe operária podia invadir o paraíso, porque o grosso da humanidade era trabalhadora e o sistema de produção capitalista é um modo de produção sustentado pelo trabalho alheio. Pensar o precariado revolucionariamente, sem mudar o capitalismo, é um exagero. Um precariado que, por enquanto, só quer melhorar suas condições de vida. A consciência resultará de suas lutas.
Internet: demasiado humana?
Produção independente, “Disconnect” provoca, ao sugerir que redes sociais realimentam incomunicabilidade das pessoas, dissimulando-a em formas múltiplas – porém ilusórias – de conexão
http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/internet-demasiado-humana/
http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/internet-demasiado-humana/
terça-feira, 1 de outubro de 2013
Civilização em crise: assim nos envenenamos (Washington Novaes)
(Disponível em: Civilização em crise: assim nos envenenamos)
Estudo revela: só em SP, 6 mil mortes seriam evitadas, por ano, se reduzíssemos poluição. Mas indústria de automóveis, incentivada, segue a todo vapor
Por Washington Novaes*, na Envolverde/IPS
Nas recentes discussões sobre “mobilidade urbana”, custo dos congestionamentos para o usuário em tempo e horas de trabalho, baixo investimento em transporte de massa – todas exacerbadas pela onda de protestos nas ruas -, tem merecido pouca atenção o tema do impacto da poluição do ar (agravado por todas essas causas) na saúde da população e no número de mortes, principalmente nas metrópoles. E foi essa exatamente a discussão sobre a “Avaliação do impacto da poluição atmosférica sob a visão da saúde no Estado de São Paulo”, promovida no início da semana na Câmara Municipal de São Paulo, com base em pesquisa desenvolvida pelo Instituto Saúde e Sustentabilidade, coordenada pelos professores Paulo Saldiva e Evangelina A. Vormittag, ambos doutores em Patologia, com a participação de mais cinco pesquisadores.
É um trabalho sobre o qual deveriam debruçar-se os administradores públicos da cidade de São Paulo, de sua região metropolitana e de cada uma das cidades paulistas, tantas são as informações que podem orientar seu trabalho. A começar pela conclusão de que, se houvesse uma redução de 10% nos poluentes na capital entre 2000 e 2020, poderiam ser evitados nada menos que 114 mil mortes, 118 mil visitas de crianças e jovens a consultórios, 103 mil a prontos-socorros (por causa de doenças respiratórias), 817 mil ataques de asma, 50 mil de bronquite aguda e crônica, além da perda de atividades em 7 milhões de dias e 2,5 milhões de ausências ao trabalho. Em apenas um ano (2011) a poluição da atmosfera contribuiu para 17,4 mil mortes no Estado.
Ainda é tempo de refletir e mudar, pois, diz a pesquisa, o tráfego e a poluição explicam 15% dos casos de enfarte na cidade de São Paulo. Quem acha que o adensamento habitacional em certas áreas pode aumentar a mobilidade deve prestar atenção a esse mesmo estudo: “O aumento do tráfego em 4 mil veículos/dia numa via até a 100 metros da residência mostrou ser um fator de risco para o desenvolvimento de câncer de pulmão”. E tudo isso embora os programas de controle da poluição do ar por automóveis, implantados a partir da década de 1990, tenham levado a uma redução de 95%, assim como a 85% na de caminhões. Até os cinco primeiros anos desta década, a diminuição de 40% na concentração de poluentes evitou 50 mil mortes e gastos de R$ 4,5 bilhões com saúde – além da redução no consumo de combustíveis e na emissão de poluentes.
Mas, apesar das evidências, ainda prevalece, aqui e no mundo, uma situação dramática. A cada ano, em uma década, 2 milhões de pessoas morreram vitimadas pela poluição do ar em todos os continentes – uma década antes foram 800 mil. E, segundo os pesquisadores, a poluição do ar “deve se tornar a principal causa ambiental de mortalidade prematura”. Com a preocupação adicional, para nós, de que as médias anuais de poluição em todas as estações paulistas onde se coletam dados estiveram, em todos os anos, em 20 a 25 microgramas por metro cúbico de ar, acima do padrão de 10 microgramas por metro cúbico de ar, que é o da Organização Mundial da Saúde. Em São Paulo, o índice é de 22,17 microgramas. E a poluição não é só de material particulado, mas também de ozônio.
Com frequência o noticiário informa que na Região Metropolitana de São Paulo um terço dos veículos não passa por inspeção – e são exatamente os mais antigos, mais poluidores. Mesmo assim, a implantação do controle na capital reduziu em 28% as emissões de material particulado. Se fosse estendida a toda a área metropolitana, poderia evitar 1.560 mortes e 4 mil internações, além de levar a uma redução de R$ 212 milhões nos gastos públicos. Outro dado impressionante da pesquisa: se todos os ônibus a diesel usassem etanol, seria possível reduzir em 4.588 o número de internações e em 745 o número anual de mortes por doenças geradas/agravadas pela poluição. E o sistema de metrô reduz em R$ 10,75 bilhões anuais os gastos com a poluição.
Já passou da hora de implantarmos sistema semelhante ao da Suécia, onde é limitado o número de anos (20) em que um veículo pode ser usado, para não agravar a poluição. Por isso mesmo o comprador de um carro novo já paga uma taxa de reciclagem; e o respectivo certificado passa de proprietário em proprietário; o último, ao final de duas décadas, pode receber a taxa de volta.
Também não há como fugir à questão: que se vai fazer, em matéria de mobilidade e poluição, se continuamos a estimular, com isenção de impostos e outros benefícios, o aumento da frota de veículos (hoje, no País todo, mais de 3 milhões de veículos novos a cada ano)? Eles respondem por 40% das emissões totais, enquanto ao processo industrial cabem 10%. E os veículos respondem por 17,4 mil mortes anuais nas regiões metropolitanas paulistas – 7.932 na de São Paulo e 4.655, só na capital. Ou seja, a cada seis anos morre uma população equivalente à de uma cidade de 100 mil pessoas em consequência da poluição.
O professor Ricardo Abramovay, da USP, lembra (Folha de S.Paulo, 13/7) que nossas emissões do setor de transporte devem dobrar até 2025, como prevê a Agência Internacional de Energia. E o professor Paulo Saldiva afirma, em entrevista ao site EcoD, que “a poluição em São Paulo é um tumor maligno”. Apesar de tudo, o patologista – um dos coordenadores da pesquisa discutida esta semana – considera-se “otimista, porque ninguém muda para melhor ou repensa seus hábitos se não tiver algum tipo de problema antes (…). As doenças costumam fazer as pessoas saírem da zona de conforto. Como estamos insatisfeitos, talvez estejamos criando as bases para melhorar a cidade”. E o problema central, sob esse ângulo – acentua ele -, não é o da mobilidade, pois, “se a frota de carros elétricos correspondesse a 100% da existente, melhoraria a questão da poluição, mas não a da mobilidade”.
Oxalá a realidade das pesquisas faça governantes e governados se moverem de forma mais adequada.
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* Washington Novaes é jornalista.
Estudo revela: só em SP, 6 mil mortes seriam evitadas, por ano, se reduzíssemos poluição. Mas indústria de automóveis, incentivada, segue a todo vapor
Por Washington Novaes*, na Envolverde/IPS
Nas recentes discussões sobre “mobilidade urbana”, custo dos congestionamentos para o usuário em tempo e horas de trabalho, baixo investimento em transporte de massa – todas exacerbadas pela onda de protestos nas ruas -, tem merecido pouca atenção o tema do impacto da poluição do ar (agravado por todas essas causas) na saúde da população e no número de mortes, principalmente nas metrópoles. E foi essa exatamente a discussão sobre a “Avaliação do impacto da poluição atmosférica sob a visão da saúde no Estado de São Paulo”, promovida no início da semana na Câmara Municipal de São Paulo, com base em pesquisa desenvolvida pelo Instituto Saúde e Sustentabilidade, coordenada pelos professores Paulo Saldiva e Evangelina A. Vormittag, ambos doutores em Patologia, com a participação de mais cinco pesquisadores.
É um trabalho sobre o qual deveriam debruçar-se os administradores públicos da cidade de São Paulo, de sua região metropolitana e de cada uma das cidades paulistas, tantas são as informações que podem orientar seu trabalho. A começar pela conclusão de que, se houvesse uma redução de 10% nos poluentes na capital entre 2000 e 2020, poderiam ser evitados nada menos que 114 mil mortes, 118 mil visitas de crianças e jovens a consultórios, 103 mil a prontos-socorros (por causa de doenças respiratórias), 817 mil ataques de asma, 50 mil de bronquite aguda e crônica, além da perda de atividades em 7 milhões de dias e 2,5 milhões de ausências ao trabalho. Em apenas um ano (2011) a poluição da atmosfera contribuiu para 17,4 mil mortes no Estado.
Ainda é tempo de refletir e mudar, pois, diz a pesquisa, o tráfego e a poluição explicam 15% dos casos de enfarte na cidade de São Paulo. Quem acha que o adensamento habitacional em certas áreas pode aumentar a mobilidade deve prestar atenção a esse mesmo estudo: “O aumento do tráfego em 4 mil veículos/dia numa via até a 100 metros da residência mostrou ser um fator de risco para o desenvolvimento de câncer de pulmão”. E tudo isso embora os programas de controle da poluição do ar por automóveis, implantados a partir da década de 1990, tenham levado a uma redução de 95%, assim como a 85% na de caminhões. Até os cinco primeiros anos desta década, a diminuição de 40% na concentração de poluentes evitou 50 mil mortes e gastos de R$ 4,5 bilhões com saúde – além da redução no consumo de combustíveis e na emissão de poluentes.
Mas, apesar das evidências, ainda prevalece, aqui e no mundo, uma situação dramática. A cada ano, em uma década, 2 milhões de pessoas morreram vitimadas pela poluição do ar em todos os continentes – uma década antes foram 800 mil. E, segundo os pesquisadores, a poluição do ar “deve se tornar a principal causa ambiental de mortalidade prematura”. Com a preocupação adicional, para nós, de que as médias anuais de poluição em todas as estações paulistas onde se coletam dados estiveram, em todos os anos, em 20 a 25 microgramas por metro cúbico de ar, acima do padrão de 10 microgramas por metro cúbico de ar, que é o da Organização Mundial da Saúde. Em São Paulo, o índice é de 22,17 microgramas. E a poluição não é só de material particulado, mas também de ozônio.
Com frequência o noticiário informa que na Região Metropolitana de São Paulo um terço dos veículos não passa por inspeção – e são exatamente os mais antigos, mais poluidores. Mesmo assim, a implantação do controle na capital reduziu em 28% as emissões de material particulado. Se fosse estendida a toda a área metropolitana, poderia evitar 1.560 mortes e 4 mil internações, além de levar a uma redução de R$ 212 milhões nos gastos públicos. Outro dado impressionante da pesquisa: se todos os ônibus a diesel usassem etanol, seria possível reduzir em 4.588 o número de internações e em 745 o número anual de mortes por doenças geradas/agravadas pela poluição. E o sistema de metrô reduz em R$ 10,75 bilhões anuais os gastos com a poluição.
Já passou da hora de implantarmos sistema semelhante ao da Suécia, onde é limitado o número de anos (20) em que um veículo pode ser usado, para não agravar a poluição. Por isso mesmo o comprador de um carro novo já paga uma taxa de reciclagem; e o respectivo certificado passa de proprietário em proprietário; o último, ao final de duas décadas, pode receber a taxa de volta.
Também não há como fugir à questão: que se vai fazer, em matéria de mobilidade e poluição, se continuamos a estimular, com isenção de impostos e outros benefícios, o aumento da frota de veículos (hoje, no País todo, mais de 3 milhões de veículos novos a cada ano)? Eles respondem por 40% das emissões totais, enquanto ao processo industrial cabem 10%. E os veículos respondem por 17,4 mil mortes anuais nas regiões metropolitanas paulistas – 7.932 na de São Paulo e 4.655, só na capital. Ou seja, a cada seis anos morre uma população equivalente à de uma cidade de 100 mil pessoas em consequência da poluição.
O professor Ricardo Abramovay, da USP, lembra (Folha de S.Paulo, 13/7) que nossas emissões do setor de transporte devem dobrar até 2025, como prevê a Agência Internacional de Energia. E o professor Paulo Saldiva afirma, em entrevista ao site EcoD, que “a poluição em São Paulo é um tumor maligno”. Apesar de tudo, o patologista – um dos coordenadores da pesquisa discutida esta semana – considera-se “otimista, porque ninguém muda para melhor ou repensa seus hábitos se não tiver algum tipo de problema antes (…). As doenças costumam fazer as pessoas saírem da zona de conforto. Como estamos insatisfeitos, talvez estejamos criando as bases para melhorar a cidade”. E o problema central, sob esse ângulo – acentua ele -, não é o da mobilidade, pois, “se a frota de carros elétricos correspondesse a 100% da existente, melhoraria a questão da poluição, mas não a da mobilidade”.
Oxalá a realidade das pesquisas faça governantes e governados se moverem de forma mais adequada.
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* Washington Novaes é jornalista.
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