Por Christophe Ventura, da Medelu | Traduzido por Cristiana Martin
Desde 2011, diversos choques contestatórios percorrem o mundo em diferentes regiões: sul da Europa, mundo árabe, América do Norte – Canadá e Estados Unidos – Turquia, América do Sul e Ásia.
Além das especificidades de cada um, todos esses movimentos partilham de pontos comuns: eles se ampliam, rejeitam as políticas de austeridade, a corrupção e criticam os sistemas políticos e as ações (e até a falta delas) dos Estados.
Nesse contexto, os partidos políticos, principalmente os do governo (tanto os de direita como os de esquerda), são interpelados e vilipendiados – para não dizer jogados ao descrédito público. Esta “crise da política tradicional” ja foi largamente comentada e analisada.
É provavel que tenha atingido seu paroxismo na Itália, onde engendrou uma nova situação: aumento generalizado (sociológico e territorial) da abstenção eleitoral; desaparecimento, nesse contexto, da esquerda proveniente do movimento operário abaixo do limiar de credibilidade; erosão dos partidos do sistema; enrijecimento ideológico das direitas; escorregão neoliberal das forças social-democratas; emergência do movimento social/eleitoral anti-partidos tradicionais Movimento Cinco Estrelas – (M5S); multiplicação de movimentos sociais locais (contra projetos inúteis, por uma redefinição da democracia local, etc). [1]
Em uma obra não traduzida – Finale di partito [2] (Fim de Partido [3]) – o intelectual e cientista político italiano Marco Revelli se interroga a respeito destes fenômenos contemporâneos. Ele analisa, em particular, essa crise de confiança dos cidadãos nos partidos políticos.
Para ele, a forma partidária herdada da segunda revolução industrial casa harmoniosamente com a organização dos grandes sistemas de produção – as fábricas – “centralizados e burocratizados, mecanizados e padronizados, rígidos e rigorosamente territorializados, pensados pela programação e planejamento de um longo período”. Tratava-se então de operar na conscientização e na integração políticas de novas massas de trabalhadores recentemente passados do estado de multidões camponesas, linguísticas e culturais ao estado de classe operária. Essa tarefa necessitava, no contexto de emergência do capitalismo industrial, de uma referência de organização vertical, adaptada às estruturas econômicas e sociais e baseada no princípio de delegação e de representação. Tratava-se de organizar a luta no seio das unidades de produção que engendravam as relações de produção territorializadas. Assim, “o partido de massa era (..) o microcosmo no qual se refletia o microcosmo social paralelo (…). Ele era destinado a refletir, no espaço parlamentar, o jogo conflituoso (e de negociação) entre os grupos sociais unidos” e a oligarquia. Neste contexto, o “representante” beneficiava da confiança do “representado”, com quem ele partilhava a proximidade territorial e, por vezes, o espaço de trabalho. Assim, a “máquina política” respondia à máquina capitalista.
O partido inspirava-se igualmente, por sua organização, no modelo de Estado e de administração que ele ambicionava conquistar.
O fim do modelo fordista de produção, a internacionalização e a segmentação de cadeias produtivas, o “livre” comércio, a financeirização da economia capitalista, a emergência da economia desmaterializada e de serviços foram, segundo o autor, o início de uma desestruturação progressiva e irreversível dos modos de organização do trabalho e de modelos de classes.
A erosão da homogeneidade sociológica e da classe de trabalhadores e o aumento do nível educacional tinham gerado a aparição da “política líquida” [4], espelho e produto da diversificação de fluxos econômicos e sociais na esfera política. Nós assistimos assim à uma “liquefação do corpo eleitoral” vindo da fragmentação de “pertencimentos sociais estáveis”. Para Marco Revelli, “o partido político ‘clássico’ (…) era a forma mais adaptada para responder à uma demanda social tipicamente “materializada” (…) de eleitores mecanicamente agregados em grupos relativamente homogêneos de populações largamente definidas por seus papéis produtivos respectivos e caracterizados por um nível médio ou baixo de escolaridade. Tratava-se da forma própria de representação na modernidade industrial”.
Agora, a família de trabalhadores é múltipla e as novas gerações vindas dos anos 1970, 1980 e 1990 têm características sociopolíticas diferentes. Não são mais os trabalhadores manuais orientados pelas grandes organizações sindicais e políticas que pesam na dinâmica das relações sociais, mas os estudantes, os técnicos, trabalhadores intelectuais mobilizados na economia dos serviços (setor terciário), o telemarketing, etc. Esses formam os novos batalhões de classes média-baixas urbanas e precárias que têm acesso aos ganhos públicos e ao emprego, mas de maneira intermitente.
Mesmo que sociologicamente minoritários, muito mais fragmentados e heterogêneos que seus “descendentes”, “mais aculturados e zelosos por sua própria independência, mais insubmissos à relação comando-obediência”, eles constituem os grupos mais ativos nas mobilizações sociais e os mais diretamente associados às novas formas sócio-econômicas desencadeadas pela mutação do capitalismo e de suas contradições. Ainda assim, neste contexto, “sua instrução elevada é correlacionada às formas de ações políticas não convencionais” [5], à rejeição dos quadros organizacionais e ideológicos das formas políticas existentes, à reivindicação de uma ação “apolítica” – uma vez que, na verdade, seus slogans e valores são hiper-políticos (probidade, respeito da vontade popular, reivindicação em favor dos serviços públicos e de bens comuns, limitação do poder monetário, demanda de uma nova ordem da sociedade, etc.). Seria uma forma “sub-política” da política ou da forma “política da segunda modernidade”. [6]
Qualquer que ela seja, para o autor, sabe-se que o “controle monopolístico do espaço público pelos partidos está terminado” . Assim como o Estado nacional, que imitaram na sua organização, os partidos exercerão uma “soberania limitada” na sociedade.
Nesta, vários poderes coabitam atualmente: o poder financeiro, o poder político (rebaixado e vítima de uma crise de confiança), o poder midiático (amplamente controlado pelo financeiro), o poder do corpo social (capaz de interferir esporadicamente com o poder político e de perturbar o consenso das oligarquias), o cyberpoder (que mobiliza o conjunto de atores de um campo inédito).
Na sua parte, os novos atores da contestação serão a questão de uma amarga e determinante batalha ideológica futura entre direita e esquerda.
Nesta sequência, uma nova dialética entre os partidos políticos da transformação e os novos movimentos da sociedade deve imperativamente se inventar.
NOTAS
[1] Sobre todos estes assuntos, ler o site www.democraziakmzero.org
[2] Marco Revelli, Finale de partito , Giuli Einaudi editore, Turin, 2013.
[3] Este título é um jogo de palavras construído a partir da expressão “Finale di partita”(Fim da partida) que é igualmente o título de uma peça do dramaturgo Samuel Beckett
[4] O conceito de “vida líquida” foi teorizado pelo sociólogo e filósofo Zygmunt Bauman. Este último continua pouco conhecido na França ou em alguns países onde suas obras foram, apesar de tudo, trazidas. Nós citamos, entre outros: O custo humano da mundialização (Hachette, Paris, 1999), A vida em migalhas (Hachette , Paris, 2003), A Vida Líquida (Rouergue, Chambon, 2006) e A decadência dos intelectuais. Dos legisladores aos intérpretes (Actes Sud, Arles, 2007). Sobre seu pensamento, ler Ignacio Ramonet, “Para um outono quente na Espanha?”.
[5] Citação pelo autor do cientista político estadunidense Ronal Inglehart
[6] Segundo as expressões do sociólogo alemão Ulrich Beck retomados pelo autor.
terça-feira, 6 de agosto de 2013
A possível economia pós-petróleo (Por Danny Chivers)
Por Danny Chivers, no World Development Movement | Tradução: Antonio Martins
A grande maioria das pessoas, em todo o mundo prefere energias renováveis a combustíveis fósseis e centrais nucleares. É o que demonstram, cada vez mais, as pesquisas globais de opinião pública, e é por isso que as sociedades estão se opondo a projetos de extração de combustíveis e reivindicando alternativas mais limpas, em todo o mundo.
“Isso é ótimo – dizem os defensores dos combustíveis fósseis – e, claro, todos queremos energias limpas um dia, mas por enquanto precisamos de carbono, petróleo e gás, porque os combustíveis renováveis não podem abastecer o planeta. Queimar carvão é um mal necessário; não há escolha exceto extrair até mesmo betume das rochas, ou praticar fracking sob os parques nacionais, ou sondar o Oceano ártico, ou explodir montanhas com depósitos de hidrocarbonetos. É uma vergonha, mas que fazer?”
Os defensores das energias limpas defrontam-se, em qualquer parte e todos os dias, com estes velhos argumentos. Mesmo sabendo que não são verdadeiros, não é fácil respondê-los sem fazer referência a longos textos de pesquisa ou relatórios herméticos, que poucas pessoas estão dispostas a ler.
É por isso que a Rede Britânica de Rochas Betuminosas desenvolveu um novo webside e infográfico, intitulado Dois Futuros Energéticos. Ele articula todos os fatos e números relevantes visualmente. Permite compreender, num olhar, que é perfeitamente possível assegurar a todos no planeta boa qualidade de vida, movida inteiramente com energias renováveis – e evitando, assim, o aquecimento global. Em contraste, também mostra o futuro (francamente terrível) para o qual caminhamos, segundo reconhece a Agência Internacional de Energia, caso as empresas e governos mantenham seus padrões atuais. Neste cenário, graves mudanças potencialmente devastadoras são inevitáveis.
outrasruim
Nosso modelo de um futuro mais limpo e mais justo difere dos cenários de “baixo carbono” num aspecto importante. Ao invés de partir do modelo em vigor, profundamente desigual, partimos dos princípios e fizemos a seguinte questão: de quanta energia realmente necessitamos para assegura boa qualidade de vida? O último relatório do Centro de Tecnologia Alternativa (“Reino Unido com Carbono Zero: Repensando o Futuro”) traz uma excelente análise sobre o volume de eletricidade, aquecimento e combustíveis líquidos necessários, por pessoa, para uma vida de baixa energia, porém “padrão nórdico” – isto é, com geladeiras, hospitais, trens e cinemas. Significa que tomemos todas as decisões inteligentes conhecidas em relação a melhora do transporte público, uso reduzido de automóveis e aviões, casas termicamente isoladas e menos consumismo.
Mar era preciso saber quanta energia pode ser gerada globalmente, a partir de diferentes fontes renováveis. Para isso, usamos as estimativas do renomado livro de Davi Mackay, Sustainable Energy Without the Hot Air, bem avaliado pela maioria dos estudiosos de energia. O cruzamento das informações mostra que as atuais tecnologias renováveis já permitem estender este padrão a todo o planeta, mesmo levando em conta o crescimento populacional.
Há, é claro, alguns importantes alertas. Não basta trocar as fontes. O planeta precisa de uma partilha mais justa da energia globalmente produzida. As tecnologias de fontes renováveis só podem mover o mundo se os muito ricos reduzirem seu consumo, para que todo o planeta atinja um nível sustentável. Além disso, em nosso modelo, há um pequeno espaço para o uso nobre do petróleo, como matéria-prima para produtos químicos e plásticos. Também consideramos o recurso a fontes agro-energéticas, para os casos em que os combustíveis líquidos são insubstituíveis, e como reserva para geração de eletricidade em períodos de alta demanda.
Mas, visto em seu todo o cenário é muito positivo. Outro futuro energético é certamente possível. Ele pode realizar-se? Depende de nossa capacidade de agir e fazê-lo acontecer. Há muitas pessoas no mundo já envolvidas na luta por um futuro mais justo e mais limpo. Nosso site procura ajudá-las a mostrar que o futuro pelo qual se empenham é viável. Trata-se de um passo crucial para traçar uma rota de transição.
Evidentemente, nosso modelo não é o único futuro seguro. Não pretendemos ter todas as respostas corretas. Mas podemos afirmar com segurança que o planeta e as sociedades já dispõem de tecnologias para oferecer a todos os habitantes uma vida digna sem o uso de carvão, rochas betuminosas, fracking ou a extração de petróleo do Ártico. Ainda mais importante: sem desencadear um desastre climático irreversível.
O futuro real provavelmente será diferente das duas opções apresentadas em nosso gráfico. Mas não deixe ninguém dizer que “precisamos” de combustíveis fósseis para dar energia ao mundo. Não precisamos.
Explore os infográficos (por enquanto, em inglês, em www.twoenergyfutures.org)
A grande maioria das pessoas, em todo o mundo prefere energias renováveis a combustíveis fósseis e centrais nucleares. É o que demonstram, cada vez mais, as pesquisas globais de opinião pública, e é por isso que as sociedades estão se opondo a projetos de extração de combustíveis e reivindicando alternativas mais limpas, em todo o mundo.
“Isso é ótimo – dizem os defensores dos combustíveis fósseis – e, claro, todos queremos energias limpas um dia, mas por enquanto precisamos de carbono, petróleo e gás, porque os combustíveis renováveis não podem abastecer o planeta. Queimar carvão é um mal necessário; não há escolha exceto extrair até mesmo betume das rochas, ou praticar fracking sob os parques nacionais, ou sondar o Oceano ártico, ou explodir montanhas com depósitos de hidrocarbonetos. É uma vergonha, mas que fazer?”
Os defensores das energias limpas defrontam-se, em qualquer parte e todos os dias, com estes velhos argumentos. Mesmo sabendo que não são verdadeiros, não é fácil respondê-los sem fazer referência a longos textos de pesquisa ou relatórios herméticos, que poucas pessoas estão dispostas a ler.
É por isso que a Rede Britânica de Rochas Betuminosas desenvolveu um novo webside e infográfico, intitulado Dois Futuros Energéticos. Ele articula todos os fatos e números relevantes visualmente. Permite compreender, num olhar, que é perfeitamente possível assegurar a todos no planeta boa qualidade de vida, movida inteiramente com energias renováveis – e evitando, assim, o aquecimento global. Em contraste, também mostra o futuro (francamente terrível) para o qual caminhamos, segundo reconhece a Agência Internacional de Energia, caso as empresas e governos mantenham seus padrões atuais. Neste cenário, graves mudanças potencialmente devastadoras são inevitáveis.
outrasruim
Nosso modelo de um futuro mais limpo e mais justo difere dos cenários de “baixo carbono” num aspecto importante. Ao invés de partir do modelo em vigor, profundamente desigual, partimos dos princípios e fizemos a seguinte questão: de quanta energia realmente necessitamos para assegura boa qualidade de vida? O último relatório do Centro de Tecnologia Alternativa (“Reino Unido com Carbono Zero: Repensando o Futuro”) traz uma excelente análise sobre o volume de eletricidade, aquecimento e combustíveis líquidos necessários, por pessoa, para uma vida de baixa energia, porém “padrão nórdico” – isto é, com geladeiras, hospitais, trens e cinemas. Significa que tomemos todas as decisões inteligentes conhecidas em relação a melhora do transporte público, uso reduzido de automóveis e aviões, casas termicamente isoladas e menos consumismo.
Mar era preciso saber quanta energia pode ser gerada globalmente, a partir de diferentes fontes renováveis. Para isso, usamos as estimativas do renomado livro de Davi Mackay, Sustainable Energy Without the Hot Air, bem avaliado pela maioria dos estudiosos de energia. O cruzamento das informações mostra que as atuais tecnologias renováveis já permitem estender este padrão a todo o planeta, mesmo levando em conta o crescimento populacional.
Há, é claro, alguns importantes alertas. Não basta trocar as fontes. O planeta precisa de uma partilha mais justa da energia globalmente produzida. As tecnologias de fontes renováveis só podem mover o mundo se os muito ricos reduzirem seu consumo, para que todo o planeta atinja um nível sustentável. Além disso, em nosso modelo, há um pequeno espaço para o uso nobre do petróleo, como matéria-prima para produtos químicos e plásticos. Também consideramos o recurso a fontes agro-energéticas, para os casos em que os combustíveis líquidos são insubstituíveis, e como reserva para geração de eletricidade em períodos de alta demanda.
Mas, visto em seu todo o cenário é muito positivo. Outro futuro energético é certamente possível. Ele pode realizar-se? Depende de nossa capacidade de agir e fazê-lo acontecer. Há muitas pessoas no mundo já envolvidas na luta por um futuro mais justo e mais limpo. Nosso site procura ajudá-las a mostrar que o futuro pelo qual se empenham é viável. Trata-se de um passo crucial para traçar uma rota de transição.
Evidentemente, nosso modelo não é o único futuro seguro. Não pretendemos ter todas as respostas corretas. Mas podemos afirmar com segurança que o planeta e as sociedades já dispõem de tecnologias para oferecer a todos os habitantes uma vida digna sem o uso de carvão, rochas betuminosas, fracking ou a extração de petróleo do Ártico. Ainda mais importante: sem desencadear um desastre climático irreversível.
O futuro real provavelmente será diferente das duas opções apresentadas em nosso gráfico. Mas não deixe ninguém dizer que “precisamos” de combustíveis fósseis para dar energia ao mundo. Não precisamos.
Explore os infográficos (por enquanto, em inglês, em www.twoenergyfutures.org)
Alternativa: limpe a cidade e viaje de graça
Reportagem original em: http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/alternativa-limpe-a-cidade-e-viaje-de-graca/
Se o passe livre é uma realidade ainda distante nos principais centros urbanos do Brasil, do outro lado do mundo a situação é bem diferente: em Pequim, os habitantes já podem pagar suas passagens de metrô com garrafas PET. Até agora, foram instalados postos de troca nas estações de Jinsong e Shaoyaoju, mas o objetivo é levar a iniciativa a todas as paradas de metrô e aos pontos de ônibus da capital chinesa.
As estações que participam da ação sustentável receberam quatro máquinas, responsáveis por coletar as garrafas plásticas. Nos equipamentos, cada exemplar reciclado equivale a um valor tabelado, que vai desde 15 centavos de dólar a 50 centavos da mesma moeda. Assim, com até quinze garrafas, o usuário poderá se locomover por todas as oito linhas e as 105 estações disponíveis.
Depois de coletado pelas máquinas, o material reciclável é enviado a uma central de processamento, em que o plástico assume outros fins de uso. De acordo com o portal Veoverde, a ação ainda está em fase de testes, e, se tudo der certo, os criadores têm a ambição de levar o projeto para os pontos de ônibus de todo o país.
O incentivo às viagens de transporte coletivo na capital chinesa é fundamental, uma vez que o país apresenta um dos mais preocupantes índices de poluição do mundo, causado pela atividade industrial e pelo trânsito massivo. Além disso, há mais de dois anos, o governo chinês anunciou que tem o objetivo de reciclar 70% dos resíduos produzidos no país até 2015.
Uma ação realizada nas estações de metrô do Rio de Janeiro, durante o carnaval deste ano, garantiu o passe livre das pessoas que apresentassem uma latinha de cerveja vazia nas catracas. A ação tinha por objetivo convencer os frequentadores dos blocos de rua e desfiles de carnaval a não dirigirem após o consumo da bebida alcoólica.
Se o passe livre é uma realidade ainda distante nos principais centros urbanos do Brasil, do outro lado do mundo a situação é bem diferente: em Pequim, os habitantes já podem pagar suas passagens de metrô com garrafas PET. Até agora, foram instalados postos de troca nas estações de Jinsong e Shaoyaoju, mas o objetivo é levar a iniciativa a todas as paradas de metrô e aos pontos de ônibus da capital chinesa.
As estações que participam da ação sustentável receberam quatro máquinas, responsáveis por coletar as garrafas plásticas. Nos equipamentos, cada exemplar reciclado equivale a um valor tabelado, que vai desde 15 centavos de dólar a 50 centavos da mesma moeda. Assim, com até quinze garrafas, o usuário poderá se locomover por todas as oito linhas e as 105 estações disponíveis.
Depois de coletado pelas máquinas, o material reciclável é enviado a uma central de processamento, em que o plástico assume outros fins de uso. De acordo com o portal Veoverde, a ação ainda está em fase de testes, e, se tudo der certo, os criadores têm a ambição de levar o projeto para os pontos de ônibus de todo o país.
O incentivo às viagens de transporte coletivo na capital chinesa é fundamental, uma vez que o país apresenta um dos mais preocupantes índices de poluição do mundo, causado pela atividade industrial e pelo trânsito massivo. Além disso, há mais de dois anos, o governo chinês anunciou que tem o objetivo de reciclar 70% dos resíduos produzidos no país até 2015.
Uma ação realizada nas estações de metrô do Rio de Janeiro, durante o carnaval deste ano, garantiu o passe livre das pessoas que apresentassem uma latinha de cerveja vazia nas catracas. A ação tinha por objetivo convencer os frequentadores dos blocos de rua e desfiles de carnaval a não dirigirem após o consumo da bebida alcoólica.
A Política como dever. (Por Mauro Santayana)
Em seu discurso no Theatro Municipal, o papa Francisco defendeu o primado da política. Ele não disse, nem lhe era necessário dizer, que só a política assegura a sobrevivência da sociedade humana. Política, entendamos, significa a participação de todos, sob a liderança de homens capazes, na escolha de representantes para elaborar as leis e dirigir o Estado. O pontífice (e pontífice é aquele que projeta e edifica pontes) volta ao princípio basilar da ação política, que é a realização do bem-estar comum da sociedade nacional.
Desde que o homem criou a linguagem, e passou a conviver em grupos maiores, ele exerce os atos políticos, porque política é, ao mesmo tempo, a organização do convívio e a administração dos conflitos.
Os atos políticos estão inseridos na esfera do cotidiano. Eles são um esforço permanente, nunca concluso, para que a Humanidade não pereça. Não é por acaso que o Papa citou o profeta Amós e sua objurgatória contra os opressores. Ele, com o exemplo bíblico, mostra que Deus não aceita a injustiça, não compactua com a glorificação do lucro, obtido com a desalmada exploração do trabalho daqueles que alugam seus braços em troca de salários aviltantes. Ele poderia valer-se de inumeráveis advertências semelhantes, encontráveis em Isaias, na única epístola de Tiago e, praticadas, nos Atos dos Apóstolos.
Deus, em nossa visão temporal e amarrada ao silêncio da matéria, é a palavra que encontramos para identificar o Absoluto, onde se escondem as imperscrutáveis razões da vida. Só a Fé, que obedece à lógica, mas não à ciência, é que dispensa a filosofia pedestre, e dá ao homem a força da esperança.
Teólogos atentos encontraram, nos últimos escritos de Ratzinger, os sinais de debilidade diante das exigências de sua missão. Ele tenta esvaziar a mensagem política da vida de Cristo e nega a história de sua própria Igreja que, para o bem e para o mal, foi, e continua a ser, uma presença política.
Coube à Igreja, na Alta Idade Média, conservar a racionalidade greco-romana, nos territórios do Império invadidos pelos bárbaros, e aos muçulmanos manter o saber antigo em seus livros e nos grupos de sábios – os da famosa Escola de Bagdá.
Ora, essa evidência tão clara é negada pelo papa Bento 16. Em sua interpretação, não foram políticos pervertidos pela luxúria e pela simonia, por exemplo, homens como Rodrigo Bórgia, Giuliano della Rovere e Giovanni de Médici, que sob os nomes de Alexandre VI, Júlio II e Leão X, governaram a Igreja de 1492 a 1513: os anos mais escuros de toda a História do Papado.
Não há outra explicação: o discernimento do Cardeal Ratzinger não era o de um homem em pleno domínio da razão, e a sua escolha para ocupar o trono de Pedro pode ser vista como vitória política do Cardeal Bertone que, associado a Wojtyla, vinha dividindo com o polonês o governo da Igreja.
Há, mesmo na hierarquia brasileira, uma tentativa de reduzir a visita do Papa, de esvaziar a mensagem evangélica, que reclama dos jovens a responsabilidade da reabilitação da política. Embora cauteloso em alguns momentos, Bergoglio deixou muito claro o seu pensamento – ele se encontra ao lado de Leão XIII, de Pio XI e de João XXIII – e bem distante de Pio X, de Pio XII e de João Paulo II.
Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.
Desde que o homem criou a linguagem, e passou a conviver em grupos maiores, ele exerce os atos políticos, porque política é, ao mesmo tempo, a organização do convívio e a administração dos conflitos.
Os atos políticos estão inseridos na esfera do cotidiano. Eles são um esforço permanente, nunca concluso, para que a Humanidade não pereça. Não é por acaso que o Papa citou o profeta Amós e sua objurgatória contra os opressores. Ele, com o exemplo bíblico, mostra que Deus não aceita a injustiça, não compactua com a glorificação do lucro, obtido com a desalmada exploração do trabalho daqueles que alugam seus braços em troca de salários aviltantes. Ele poderia valer-se de inumeráveis advertências semelhantes, encontráveis em Isaias, na única epístola de Tiago e, praticadas, nos Atos dos Apóstolos.
Deus, em nossa visão temporal e amarrada ao silêncio da matéria, é a palavra que encontramos para identificar o Absoluto, onde se escondem as imperscrutáveis razões da vida. Só a Fé, que obedece à lógica, mas não à ciência, é que dispensa a filosofia pedestre, e dá ao homem a força da esperança.
Teólogos atentos encontraram, nos últimos escritos de Ratzinger, os sinais de debilidade diante das exigências de sua missão. Ele tenta esvaziar a mensagem política da vida de Cristo e nega a história de sua própria Igreja que, para o bem e para o mal, foi, e continua a ser, uma presença política.
Coube à Igreja, na Alta Idade Média, conservar a racionalidade greco-romana, nos territórios do Império invadidos pelos bárbaros, e aos muçulmanos manter o saber antigo em seus livros e nos grupos de sábios – os da famosa Escola de Bagdá.
Ora, essa evidência tão clara é negada pelo papa Bento 16. Em sua interpretação, não foram políticos pervertidos pela luxúria e pela simonia, por exemplo, homens como Rodrigo Bórgia, Giuliano della Rovere e Giovanni de Médici, que sob os nomes de Alexandre VI, Júlio II e Leão X, governaram a Igreja de 1492 a 1513: os anos mais escuros de toda a História do Papado.
Não há outra explicação: o discernimento do Cardeal Ratzinger não era o de um homem em pleno domínio da razão, e a sua escolha para ocupar o trono de Pedro pode ser vista como vitória política do Cardeal Bertone que, associado a Wojtyla, vinha dividindo com o polonês o governo da Igreja.
Há, mesmo na hierarquia brasileira, uma tentativa de reduzir a visita do Papa, de esvaziar a mensagem evangélica, que reclama dos jovens a responsabilidade da reabilitação da política. Embora cauteloso em alguns momentos, Bergoglio deixou muito claro o seu pensamento – ele se encontra ao lado de Leão XIII, de Pio XI e de João XXIII – e bem distante de Pio X, de Pio XII e de João Paulo II.
Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.
segunda-feira, 22 de julho de 2013
Liev Tolstoi - Religião
"O homem pode ignorar que tem uma religião, como pode também ignorar que tem um coração; mas sem religião e sem coração, não pode viver."
Liev Tolstoi
Liev Tolstoi
A Mentira e a Verdade
Só há uma certeza na mentira: ela será descoberta.
A ordem natural é o despertar para a verdade.
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