domingo, 17 de novembro de 2013

Suécia fecha 4 prisões e prova: a questão é social (Lino Bocchini)

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Penas alternativas e investimento na ressocialização de detentos derrubaram a população carcerária e levaram ao fechamento de 4 prisões no país nórdico

por Lino Bocchini

O jornal inglês The Guardian informou em sua edição de ontem que 4 prisões e um centro de detenção foram fechados na Suécia, pela Justiça daquele país, por falta de prisioneiros. O diretor de serviços penitenciários local, Nils Oberg, afirmou que o número de detentos estava caindo 1% ao ano desde 2004 e, de 2011 para 2012, caiu 6%.

Oberg e outras fontes ouvidas pelo jornal inglês acreditam que a queda do número de presos tem os seguintes motivos: 1) investimentos na reabilitação de presos, ajudando-os a ser reinseridos na sociedade; 2) penas mais leves para delitos relacionados às drogas e 3) adoção de penas alternativas (como liberdade vigiada) em alguns casos.

Com uma política semelhante, a superpopulação carcerária no Brasil e em outros países poderia ser bastante atenuada. O exemplo sueco deixa claro, mais uma vez, que a questão da criminalidade é, sim, social. Ninguém nasce malvado, não existe o que popularmente é chamado de sangue ruim.

Na Suécia, 112º país do mundo em população carcerária, são 4.852 presidiários para 9,5 milhões de habitantes –51 para cada 100 mil habitantes. No Brasil, que tem a 4ª maior população carcerária do mundo, são 584.003 detentos, ou 274 por 100 mil habitantes.

E olha que a reportagem nem entra no mérito de que naquele país nórdico toda população têm acesso a serviços públicos de qualidade (educação, saúde, cultura etc) e que lá os direitos humanos são levados a sério pelos governantes.

Acreditar que não há ligação entre a questão social e o número de presos em um país é acreditar que há pessoas mais propensas para o mal. Ou que quem nasce abaixo da linha do Equador é mais malandro ou algo que o valha.

Isso sem falar na questão moral. Insuflada pelos Datenas da vida, boa parte da população acha que mesmo quem cometeu um crime leve tem de amargar longos períodos encarcerados em condições sub-humanas. E grita contra qualquer investimento na ressocialização de detentos –“pra quê gastar dinheiro com bandido?”.

O que o autoproclamado “cidadão de bem” precisa entender é que a melhor opção para a segurança de sua família –e para um mundo melhor— é o modelo sueco, e não a manutenção das prisões brasileiras tais como estão hoje.

(Disponível em: http://www.cartacapital.com.br/sociedade/suecia-fecha-4-prisoes-e-prova-mais-uma-vez-a-questao-e-social-334.html)

sábado, 16 de novembro de 2013

A Arca da Aliança: blog de poesias, contos e crônicas

"A Arca da Aliança é descrita na Bíblia como o objeto em que as tábuas dos dez mandamentos e outros objetos sagrados teriam sido guardadas, como também veículo de comunicação entre Deus e seu povo escolhido." (Wikipedia)

Este blog foi criado com o intuito de abrigar toda minha produção literária: contos, crônicas, poesias, entre outros. Também, raramente, posto textos, músicas ou imagens de outros autores, quando devidamente especificado.

Este blog nasceu como o Oráculo Perdido, amadureceu como o Exército de Mim e hoje é a Arca da Aliança, que representa o que guarda aquilo que é de mais sagrado. Simbolicamente, exponho a arca que abriga meus sentimentos e intimidade expressos em minhas produções literárias para aqueles que se interessarem, que admiram o que escrevo.

Fique à vontade neste espaço que compartilho contigo, aproveite para compartilhar comigo seus sentimentos também.

O tiro no pé das entidades médicas (Lilian Terra)

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Jaru-RO: posto de saúde pichado em março, por moradores obrigados a percorrer 30 quilômetros até médico mais próximo


Rechaçar programa do governo, sem propor alternativas, evidenciou dilemas de profissão atordoada com tecnologia e massificação do atendimento

Por Lilian Terra

As entidades que em teoria representam a classe médica deram um tiro no pé. Ao se oporem ao programa “Mais Médicos”, tudo o que conseguiram foi fortalecer a imagem de elitistas e corporativistas que vem nutrindo ao longo das últimas décadas.

Nem sempre foi assim. Há não muito tempo atrás a medicina era vista como um dom, um sacerdócio. O médico era como o padre, sabia da vida das famílias que assistia – suas angústias, aflições. Era, além de cuidador, conselheiro. Mas o perfil do cuidado em saúde mudou. A tecnologia trouxe avanços de forma muito rápida e talvez o médico não tenha sabido conciliar os novos conhecimentos com a antiga e preciosa escuta do doente. Além disso, o acesso à saúde ampliou-se bem mais que a quantidade de médicos formados, de maneira que os que estavam no mercado precisaram captar os novos pacientes, em detrimento do tempo de atenção a cada um.

Hoje, temos muitas escolas médicas no país, com estudantes que buscam status e enriquecimento, mas também que buscam salvar vidas, cuidar de pessoas, independentemente de cor, credo ou classe social. Há ainda aqueles que buscam um sistema de saúde melhor e mais justo para o Brasil. Entram na faculdade entre seus 17 e 20 anos, vindos de famílias mais abastadas, de escolas particulares, tendo tido até então pouco ou nenhum contato com a pobreza, exceto aquele provocado pela violência ou pelos funcionários mais pobres da família. A faculdade precisaria fazer com que estes futuros médicos abrissem seus olhos para esta nova realidade que se apresenta.

O fato é que existe muito preconceito dentro da classe médica com o trabalho na atenção básica. O “médico do postinho” é visto como alguém inferior, que não teve sucesso em escolher uma especialidade. As residências de Saúde Coletiva, Medicina Preventiva ou Saúde da Família são menos procuradas. Todos aspiram a ser Ivo Pitangui, quase ninguém a ser Osvaldo Cruz. Quando se fala em ir para o interior ou trabalhar nos Centros de Saúde da periferia, sempre dizem que não há estrutura e condições de trabalho – o que é bem verdade, mas talvez não seja o motivo real da recusa.

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Tudo isso ficou muito claro no debate acerca do Programa Mais Médicos do governo federal. As entidades erraram ao não mostrar à população que algumas alternativas já vinham sendo debatidas. Desde 2009, por exemplo, tramita no Legislativo a Proposta de Emenda Constitucional 454, cujo objetivo é instituir a Carreira de Estado para médicos. Quatro anos depois, a PEC segue sob análise de uma comissão especial. Sendo aprovada, tramitará por tempo indefinido até apreciação do plenário das duas casas do Legislativo.

A exemplo do que ocorre no Poder Judiciário, não faltariam profissionais mesmo nos locais mais remotos do país – caso houvesse uma carreira. Porém, ao invés de chamar atenção para este aspecto, as entidades médicas focaram na recusa, não nas alternativas. Não mostraram à população o desejo real, de muitos médicos brasileiros, de ir para estas unidades de saúde; mas, sim, o desejo de bloquear a vinda de estrangeiros. Demonstraram, em sua luta, mais medo de perder status e nível salarial do que de deixar a população desassistida, permitindo que o governo colocasse nos médicos a responsabilidade pela má qualidade da saúde pública.

As entidades médicas representaram bem a classe médica. Infelizmente, porém, existem profissionais que se viram abandonados pelos que deveriam representá-los – aqueles comprometidos com o SUS, que estão na luta por menos desigualdade social, por mais acesso aos serviços públicos, por mais qualidade destes serviços. Mais comprometidos que o próprio governo, que parece rejeitar a proposta de iniciativa popular que visa destinar 10% da receita bruta da União para a saúde. Ao se dirigir ao Congresso na última quarta-feira, 18/09/2013, a ministra Miriam Belchior afirmou não ser possível destinar essa fatia para o financiamento da saúde, ainda que especialistas tenham estudado previamente a proposta e que outros países destinem uma parte ainda maior de seu PIB.

Enquanto isso, as entidades médicas não tomam posição ao lado do governo ou ao lado da população. São uma terceira categoria, cada vez mais isolada. Como apontou a colunista Cláudia Colluci, em recente texto para a Folha de São Paulo, os médicos precisam se colocar “na pele de quem vive nos rincões sem assistência médica” e provavelmente este é um exercício muito difícil para jovens da classe média alta brasileira – certamente bem mais do que o das provas de vestibular.

(Disponível em: http://outraspalavras.net/brasil/o-tiro-no-pe-das-entidades-medicas/)

A melancolia fora de lugar (Arlindenor Pedro)

Gravura "Mellancolia", de Albrecht Dürer

Num mundo racional, em que tudo é previsível, melancolia é tratada como doença. Deve a humanidade reagir a esse desígnio, traçado por um sistema sem sujeitos?

Por Arlindenor Pedro | Imagem: Albrecht Dürer, Melancolia

Refletir, pensar, saber o porquê: eis uma das características marcantes dos seres humanos – que se acentua em alguns, noutros menos.

Sentir, provar, viver intensamente o que se apresenta, eis outra característica que também se acentua em uns, em outros não tanto.

Ser melancólico e saber o que é melancolia, creio, sempre acompanhou o homem em sua trajetória pela terra. Melancolia, então, tornou- se um grande enigma: por uns vivido, por outros pretensamente desvendado.

Embora presente em todas as culturas, foi entre os gregos da Antiguidade que se destacou a sua racionalização, ou seja, a real compreensão do que poderia ser. Em Aristóteles conseguimos ter sua sistematizacão, que chegou até nós após ter influenciado várias sociedades. Ele faz uma clara associação entre melancolia e criatividade.

“Por que razão todos os que foram homens de exceção, no que concerne à filosofia, à ciência do Estado, à poesia ou às artes são manifestamente melancólicos, e alguns a ponto de serem tomados por males dos quais a bile negra é a origem (…)?” (Aristóteles, “O Problema XXX”).

Talvez guiados por essa pergunta, artistas procuraram retratar tal comportamento, cientistas buscaram suas causas e, naturalmente, melancólicos trataram de vivê-la na sua intensidade, como na Renascença e no Romantismo, quando era “doença bem-vinda”, pois enriquecia a alma.

Provavelmente a gravura Mellancolia, de Albrecht Dürer, produzida nesse período, seja a obra mais conhecida sobre o tema, atravessando os tempos e nos colocando frente a frente com tal enigma.

No nascimento da era industrial, com o texto Luto e Melancolia, de Freud, parece que nos aproximamos mais do momento de desvendá-la. Para Freud, a melancolia é um estado emocional semelhante ao processo de luto – semelhante, não igual, pois não há a perda que o caracteriza. A melancolia pode ocorrer sem causa definida (sic).

Mas, na sociedade moderna, principalmente na contemporaneidade, constatamos que a melancolia não é mais bem-vinda, pois se choca com o espírito hedonista necessário a um “bem-viver” e a uma padronização normótica.

No início do século XX, Edward Bernays, sobrinho de Freud que vivia nos Estados Unidos, apropriou-se dos estudos do renomado cientista – que via no interior da mente humana áreas ainda não conhecidas, a que chamou de inconsciente, onde existiriam forças que moldavam seu comportamento. Observou, então, que essas forças podiam ser controladas e desenvolveu, através de técnicas da psicanálise e de conselhos de seu tio, mecanismos que pudessem induzir ao consumo de bens, mesmo que desnecessários ao pretenso consumidor.

Em Bernays vemos a gênese do que foram as técnicas de propaganda e controle da mente que deram à humanidade tanto as grandes ações de propaganda do nazi-fascismo e do “socialismo real” da terceira internacional, quanto o desenvolvimento das campanhas de massa do agressivo capitalismo norte-americano. Aquilo que Guy Debord chamou de “espetáculo concentrado”, contido nas sociedades totalitárias e no “espetáculo difuso das sociedades ditas democráticas (“A Sociedade do Espetáculo”).

Após apropriar-se da força de trabalho do homem o capital parte, então, através das técnicas de propaganda (das quais Bernays é pioneiro), para o controle e a manipulação do que poderiam ser seus gostos, sentimentos, desejos… enfim: da sua alma.

É por demais conhecido o estudo de caso da campanha de marketing criada por Bernays no início do século passado, que levou as mulheres americanas a fumar em público (coisa até então inimaginável) .

Ocorre, então, que a melancolia se apresenta como necessária de ser controlada, por todos os meios disponíveis criados pela psicologia, pela psicanálise e pela psiquiatria.
No mundo racional, em que tudo é previsível, a melancolia não tem lugar. Tem que ser substituída por atitudes que todos julguem ter sob controle. As emoções serão então contidas, dando lugar a relações humanas totalmente reificadas.

Mas será que esse controle se dá na sua totalidade? Ou, deve a humanidade reagir a tal desígnio, traçado por um sistema sem sujeitos? Mais ainda: a melancolia deve ser extirpada e tratada como uma doença hostil ao homem?

Na ação concreta da obra de arte, o artista exercita claramente a sua liberdade livrando-se das amarras a ele impostas. A obra que apresenta ao mundo, e que a partir daí não mais lhe pertencerá, torna-se um instrumento de libertação, que cada um viverá de acordo com seu senso estético, suas considerações. Tocar a sensibilidade, chegar até a alma – eis aí o caminho do artista.

No filme Melancolia, o cineasta dinamarquês Lars Von Trier nos coloca diante da temática da euforia e do sofrimento através de um filme em que não existe saída, e o final não é feliz. Tenta dessa forma tocar a nossa alma com um tema sobre o qual, no passado, debruçaram-se tantos pensadores.

Trata-se de um filme de atmosfera especial, cheio de simbolismos. O espectador escolherá sua identificação com os personagens, numa situação-limite de fim próximo – não o fim de um ser, individualmente, mas da totalidade do mundo onde vivemos, com suas cidades, florestas, animais etc.

Vemos então o embate entre os diversos personagens, com sua postura perante o mundo, destacando-se a relação entre duas irmãs com visões diametralmente opostas perante a vida e o fim que se aproxima.

Para horror de muitos, Von Trier nos faz refletir sobre a morte (no sentido da extinção da espécie) e o sofrimento, que tanto queremos afastar de nós. Apresenta-nos um planeta com uma trajetória de colisão determinada, sem possibilidade de mudanças: o que fazer em um momento que não há nada a fazer?

Diante do desespero de sua irmã, Justine, a personagem afetada pela melancolia, vê como perfeitamente lógico o desfechar trágico de suas vidas. Como se fosse o esperado: afinal, não fará nenhuma diferença no Universo!

Trazendo este tema para reflexão, Von Trier nos mostra a sensibilidade dos melancólicos e o seu desajuste em relação ao mundo real. E ao mesmo tempo a necessidade de equilibrar razão e sentimento, em um mundo onde o deus da razão reina absoluto, afastando os sentimentos dionisíacos da humanidade.

Talvez não estejam errados os que veem no planeta, denominado Melancolia no filme, e que irá chocar-se com a Terra, uma alusão aos perigos que rondam a nossa e outras espécies em um mundo erigido pelo capitalismo, com sua devastação ambiental. Salta aos olhos de todos que o planeta está em perigo. E, nesse sentido, os melancólicos são mais conhecedores do perigo que corremos .

Não restam dúvidas de que o homem contemporâneo, aprisionado por um sistema que não lhe permite ver a totalidade do mundo em que vive, tornou-se limitado e regrediu na sua capacidade de observar e sentir a realidade. Muito por ter combatido e afastado a melancolia de sua existência, tornou pobre a sua alma – ao contrário do homem da Renascença e do Romantismo, este um ser mais completo por não temer essa forma de ser.

(Disponível em: http://outraspalavras.net/destaques/a-melancolia-fora-de-lugar/)

Os governos não sofrem com tufões (Walden Bello)

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Megaciclone Haiyan deveria tornar autoridades e poder econômico mais propensos a ações contra aquecimento global. Por que eles permanecem imóveis?

Por Walden Bello | Tradução: Inês Castilho

Parece que, atualmente, sempre que a natureza deseja enviar uma mensagem urgente à humanidade, ela o faz por intermédio das Filipinas. Este ano, o mensageiro foi o tufão Haiyan, conhecido nas Filipinas como Yolanda.

Pelo segundo ano consecutivo, o tufão mais forte do mundo passou pelas Filipinas, com Yolanda seguindo os passos de Pablo (conhecido como Bopha), de 2012. E pelo terceiro ano consecutivo, uma tempestade destruidora desviou-se do caminho habitual seguido pelos tufões, atingindo comunidades que não aprenderam a viver com esses temíveis eventos climáticos porque, no passado, eram raramente atingidos por eles. Sendong em Dezembro de 2011 e Bopha no ano passado fatiaram a região de Mindanao horizontalmente, e Yolanda atravessou as Visayas também no sentido horizontal.

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Que as mudanças climáticas estão criando supertufões que tomam estranhas direções é a mensagem da natureza não apenas para os filipinos, mas para o mundo todo – paralisado diante das imagens televisivas de um ciclone furioso, que varria a região central das Filipinas em direção ao continente asiático. A mensagem que a natureza enviou via Yolanda – com ventos mais fortes que os da supertempestade Sandy, que atingiu New Jersey e New York em outubro passado, e os do furação Katrina, que devastou New Orleans em 2005 – teve significado especial para os governos reunidos em Varsóvia para as negociações anuais globais sobre as mudanças climáticas (COP19), iniciadas em 11 de novembro.

Seria uma coincidência que ambos, Pablo e Yolanda, tenham ocorrido justo no momento das negociações globais sobre o clima? Pablo esmagou a região de Mindanao durante o último estágio da Conferência das Partes 18 (COP18) em Doha, no ano passado. Para reforçar a mensagem de Haiyan, o comissário Naderev Sano, principal negociador das Filipinas em Varsóvia, entrou em greve de fome quando as negociações começaram, em 11 de novembro.

COP19: um novo impasse?

É duvidoso, contudo, que os governos reunidos em Varsóvia venham a dar conta da questão. Por algum tempo, no início deste ano, pareceu que o furacão Sandy colocaria as mudanças climáticas no primeiro plano da agenda do presidente Obama. Isso não aconteceu.

Obama alardeou que estava ordenando, às agências norte-americanas, tomar medidas para forçar as usinas de energia a reduzir as emissões de carbono, e incentivando uma transição para fontes limpas de energia. Mas não enviou a Varsóvia uma delegação orientada a alterar a política dos EUA, de não-adesão ao Protocolo de Kyoto – que Washington assinou mas nunca ratificou. Embora 70% dos norte-americanos acreditem agora nas mudanças climáticas, o presidente não tem coragem de desafiar os fanáticos “céticos do clima” que enchem as fileiras do Tea Party e o establishment corporativo dos EUA.

É pouco provável que a China, hoje o maior emissor mundial de carbono, concorde com limites obrigatórios às suas emissões de gases de efeito estufa. Está munida da justificativa de que aqueles que mais contribuíram para o volume acumulado desses gases, como os Estados Unidos, devem ser forçados a fazer cortes obrigatórios de suas emissões. Assim como Beijing, agirão Brasil, Délhi e uma série de governos em desenvolvimento industrialmente mais avançados, que são as vozes mais influentes da coalizão “Grupo dos 77 e China”.

O que os governos desses países parecem estar dizendo é que os planos de desenvolvimento industrial de uso intensivo de carbono que estão perseguindo não são negociáveis.

Lacuna perigosa

De acordo com a Plataforma de Durban, de 2011, os governos devem apresentar em 2015 seus planos de redução das emissões de carbono, a ser implementados no início de 2020. Para os cientistas climáticos, isso deixa uma lacuna perigosa de sete anos, em que nenhum movimento obrigatório de redução de emissões pode ser esperado a partir dos Estados Unidos e muitos países que usam carbono intensivamente. Está cada vez mais claro, agora, que cada ano conta, se o mundo pretende evitar um aumento da temperatura média global além de 2ºC, ponto de referência além do qual se prevê que o clima global fique realmente fora de controle.

Países como as Filipinas e vários outros Estados insulares estão na linha de frente das mudanças climáticas. A cada ano, com eventos climáticos desastrosos, maciços e frequentes, como Yolanda e Pablo, eles recordam a injustiça da situação. Embora estejam entre os que menos contribuiram com as mudanças climáticas, são suas maiores vítimas. Seu interesse não é apenas ter acesso aos fundos de “adaptação” – como o Fundo Verde para o Clima, que canalizaria, a partir de 2020, 100 bilhões de dólares anuais dos países ricos aos países pobres para ajudá-los a adaptar-se às mudanças climáticas (até agora as contribuições têm sido pequenas e chegam lentamente).

Com os tufões abrindo a série dos eventos climáticos extremos, esses países da linha de frente precisam compelir os principais emissores de gases-estufa a concordar com cortes radicais imediatos das emissões, e não em 2020.

Táticas heterodoxas

Durante as negociações do ano passado em Doha, um dos líderes da delegação filipina chorou quando falou sobre os estragos causados pelo Pablo em Mindanao. Foi um momento de verdade nas negociações sobre o clima.

Este ano, a delegação deve converter as lágrimas em raiva, e denunciar os grandes poluidores do clima por sua contínua recusa de dar os passos necessários para salvar o mundo da destruição que suas economias carbono-intensivas desencaderam sobre todos nós. Talvez o melhor papel a ser desempenhado pela delegação filipina e a de outros países-ilha seja adotar táticas heterodoxas, como interromper as negociações processualmente para evitar que a conferência caia no alinhamento familiar do Norte rico versus o Grupo dos 77 e China. Essa configuração garante um impasse político, mesmo quando o mundo é arremessado em direção a quatro graus a mais – mundo esse que, como o Banco Mundial alertou, será uma certeza, se não for feito um esforço global em massa para impedi-lo.

(Disponível em: http://outraspalavras.net/capa/os-governos-nao-sofrem-com-tufoes/)

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Açúcar, droga pesada (Ricardo Abramovay)

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Indústria de refrigerantes dissemina epidemia global de obesidade, cinco vezes mais onerosa que o tabagismo. Brasil é segundo país mais afetado

Por Ricardo Abramovay, em Página 22

A alimentação talvez seja o exemplo mais emblemático da distância que pode existir entre riqueza e prosperidade. Parte importante daquilo que o sistema econômico oferece à vida social agrava problemas cujas soluções vão ficando cada vez mais difíceis e caras.

Não há dúvida de que para eliminar a vergonhosa existência de 1 bilhão de pessoas em situação de fome é necessário dispor de alimentos. Mas a verdade é que há, no mundo contemporâneo, 500 milhões de obesos. Somados às vítimas do sobrepeso, é um contingente que supera e cresce muito mais que o de famintos.

As doenças do excesso ameaçam mais gente que as enfermidades da falta. Os riscos sociais que decorrem daí são crescentes e repercutem sobre a própria viabilidade de financiamento dos sistemas de saúde em diferentes países.

Esta é a razão pela qual o tema desperta o interesse não só dos especialistas em saúde pública, mas também de organizações financeiras globais.

O Credit Suisse acaba de publicar um importante relatório, cujo objeto é aquele que, isoladamente, pode ser considerado o principal vetor da epidemia global de obesidade: o açúcar. Não o contido naturalmente nas frutas ou no leite, mas o que se adiciona aos alimentos, o que inclui o xarope de milho, muito usado nos Estados Unidos e, em menor proporção, no México, na Argentina e no Canadá. No início dos anos 1980 o consumo de açúcar (incluindo o xarope de milho) chegava a 48 gramas per capita. Hoje, já está em 70 gramas. Isso corresponde a 280 calorias.

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Só que o consumo de açúcar não se distribui de forma homogênea. A média per capita chinesa é de 115 calorias diárias de açúcar. A dos Estados Unidos sobe a nada menos que 658. O Brasil é o segundo consumidor, superando as 600 calorias diárias, seguido por Austrália, Argentina e México, todos na faixa de 600 calorias diárias ou mais. Em 2009, a Associação Americana de Cardiologia (Heart American Association) recomendava não mais que 150 calorias diárias de açúcar adicionado para homens e 98 para as mulheres.

Nos Estados Unidos (e não só lá, é claro) é nos refrigerantes que está a maior proporção do açúcar contido em produtos alimentares: nada menos que 33% do total.

Mas o metabolismo do açúcar diluído em refrigerantes – e também nos sucos, é importante assinalar– é diferente daquele consumido sob a forma de doces, balas, sorvetes, iogurtes ou molhos: a informação que o corpo recebe do consumo de açúcar em forma líquida não o induz a reduzir proporcionalmente o consumo de outras formas de calorias. Ou seja, refrigerante não mata a fome e tudo indica que, ao contrário, estimula o apetite.

A responsabilidade das empresas

As maiores marcas globais insistem na existência de um componente genético da obesidade. Apesar disso, o estudo do Credit Suisse mostra imensa convergência da literatura científica que associa as doenças da obesidade ao consumo de açúcar: 98% dos médicos entrevistados no âmbito da pesquisa acreditam que o açúcar está na origem da obesidade, e 96% deles associam-no à diabetes tipo 2.

Essa é uma doença que atinge hoje 370 milhões de pessoas no mundo. No México, já é a principal causa de mortalidade. O país está entre os campeões de obesidade (inclusive infantil) e é o segundo consumidor mundial de refrigerantes.

Os custos do tratamento da diabetes 2 para o sistema global de saúde já chegam a US$ 470 bilhões. Só nos Estados Unidos, são US$ 140 bilhões, mais que os US$ 90 bilhões que se gastam com doenças decorrentes do consumo de tabaco. Globalmente, o horizonte é que, em 2020, o sistema de saúde gaste US$ 700 bilhões para tratar o que poderá ser 500 milhões de habitantes atingidos por essa doença.

As grandes marcas globais que se voltam à produção de refrigerantes e sucos levam adiante ações relevantes para a conservação e a recuperação da água, para estimular a reciclagem de suas embalagens e até para fortalecer o empreendedorismo.

Por mais importantes que sejam, tais iniciativas empalidecem diante da tentativa permanente de negar o vínculo, corroborado por robustas evidências, entre o produto que elas oferecem e algumas das mais graves patologias epidêmicas de nossa época.

–
* Professor titular do departamento de Economia da Faculdade de Economia e Administração da USP (FEA) e do Instituto de Relações Internacionais da mesma universidade. Autor de Muito além da Economia Verde e Lixo Zero: gestão de resíduos sólidos para uma sociedade mais prospera

(Disponível em: http://outraspalavras.net/outrasmidias/capa-outras-midias/acucar-droga-pesada/)

What About the Soul? (Charles R. Perakis)

By Charles R. Perakis, DO

If you could be any cell in the human body, which one would you choose and why? I found this question in a letter to the editor in the New England Journal of Medicine in the 1990s. The authors posed this question when interviewing medical students because they felt that it offered insights into the students' motivations.

During orientation, I used to ask all new students in the family medicine rotation at my hospital to consider this question. The neuron is an unsurprising, popular choice and is often selected by those students who like to be in control or at the center of things. Since the liver is versatile and capable of regeneration, some choose the hepatocyte. Nowadays, the stem cell is another frequent choice. Maybe some students are indecisive and others don't like limiting their options. Some choose the lymphocyte, the erythrocyte, or the myocardial cell. Still others choose the ova or spermatozoa, cells capable of creating life. My favorite answer, however, is from a medical student who quickly indicated her choice was a cell in the islets of Langerhans because she responded well to sweetness.

It is only fair that my students in turn want to know which cell I would choose. Over the years, I have had lots of time to contemplate my choice. I finally decided on the soul cell, which leads to the question about its location. Is the soul located in one cell, all the cells, or beyond mankind somewhere in the cosmos? The answer to this question continues to elude scientific inquiry.

My choice of the soul cell was inspired by Leonardo da Vinci's anatomical drawing illustrating the soul as located behind the eyes in the anterior ventricle of the brain. da Vinci believed that "the senso commune (sense of community), phantasy, and imagination originated in the anterior ventricle." In this drawing, he connected the soul to the eye, which we often refer to as the window to the soul. Here, all the senses converged where judgment formed. Consciousness was the soul. da Vinci felt that to see was to know and to know was the soul.

One can view the soul as spiritual and immortal or as material and mortal. This dichotomy is a great starting point for a dialogue about what the soul is and what healers need to know about it. For students who have been studying the basic sciences, pathology, and textbook diseases, considering the soul may be a reach. After years of caring for patients as a general practitioner, I realized that medical education should pay more attention to the soul.

During their family medicine rotation, students often are faced with patients who have medically unexplained symptoms. These patients' lives are complicated by poverty, abuse, and hopelessness. They lack meaning. They are demoralized. When we treat these patients, I introduce my students to the diagnosis of soul sickness. We discuss how the prescription for a drug or the overinvestigation of symptoms is counterproductive. The treatment for soul sickness is often just listening.

How can we encourage healers, then, to attend to the needs of the soul as well as the needs of the body? How can doctors sort through the symptoms a patient presents to recognize their underlying beginnings? These questions should prompt a dialogue between students and their teachers about the influence of the mind, body, and spirit in treating patients.

What better way to introduce students to the humanities (philosophy, aesthetics, history, literature, and ethics), which provide insight into the human condition and the nature of suffering, than to discuss the exact location of the soul?

(Disponível em: http://www.medscape.com/viewarticle/812274?src=mp&uac=179489CG&spon=25)
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